Império da Maldade

Posted: Junho 15, 2011 in Uncategorized
Ernesto, maravilhoso funcionário público, promovido sabe-se lá porque, a chefe de secção de uma repartição qualquer, num dia de nevoeiro, em que só ele via, via mas não sabia porque. Dois telemóveis no bolso, qual empresário, apressa-se a comunicar à princesa, nome pelo qual trata a mulher, tão grandioso feito. A princesa, gorda, feia, arrogante esperava ansiosamente por este dia, para poder deixar de falar à vizinha de baixo. Agora é que ela nunca mais me vê os dentes, disse com orgulho ao chefe Ernesto. Ernesto teve sempre jeito para mandar, não obstante em casa baixar o tom de voz, não fora a princesa o proibir daquela relação sexual, semanal. Agora era chefe, até na terra todos tinham que saber, pois a pindérica da mãe do Chico, estabelecido na cidade, haveria de engolir o orgulho de que falava do filho. Foi por via das chamadas que a princesa fez que todos ficaram a saber, chefe, agora era chefe. No dia seguinte à promoção chegou à repartição de fato e gravata, até colete levava, alto, esguio, tez morena, olhos cor de terra, da terra que há anos tinha deixado para fugir da miséria, da terra em que viu o Chico fugir para servir numa mercearia, da terra em que conheceu a princesa, filha de um negociante de gado falido, mas cinicamente respeitado. Tinha-o avisado o Chico a quando da primeira visita á aldeia, Ernesto olha que aquilo lá para Lisboa é difícil, tens que ser cínico, muito cínico (disso a princesa sabia), para poderes ser alguém. Ernesto nunca soube ser cínico, mas a espaços lá era homem para fazer um favorzito a um amigo, claro com faro de uma ou outra garrafita que à sonega lhe davam, nunca foi corrupto, aliás ninguém é corrupto, trocam-se favores entre conhecidos ou de conhecidos de conhecidos. É certo que ainda não é o maior, tem um chefe que tem um director que tem um director geral que tem um secretário de estado que tem um ministro que tem um primeiro-ministro, mas já manda em oito pessoas, que deixou de tratar por tu. Havia na repartição pessoas mais bem colocadas para assumir o cargo, mas duas delas eram mulheres que por terem filhos, tinham elevados índices de absentismo (ainda hoje Ernesto não sabe pronunciar a palavra) e por isso foram renegadas para a lista dos disponíveis, não fora o estado dar-lhes um aumento de vinte e cinco por cento no abono de família, ganhariam sempre menos que ele. Outras duas, solteiras mas demasiadamente novas. Dois dos homens fumavam, crime chefe não pode ter vícios, os outros dois, um deles era lá da terra e tinha sido o Ernesto que por via de uma cunha o tinha lá metido, entrara para paquete e já era empregado de carteira, o outro é comunista e não tem jeito nenhum para a graxa.
A princesa nunca trabalhara, a não ser umas roupitas que vendia a prestações para as moçoilas lá da aldeia, negócio que só era alimentado pela ignorância das mesmas e de suas mães, pois desejavam que se casassem virgens e com grande enxoval. Noutros tempos as visitas à aldeia eram feitas de carro cheio, (a custo comprado, com letras que o Joaquim da leiteiria avalizou), para lá, de adereços, atoalhados, robes, e roupa interior, para cá, batatas, cebolas, hortaliças, vinho e à socapa um garrafão de bagaço, escondido no banco de trás.
CONTINUA………

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