5 MINUTOS NA MESA DE JOGO DA VIDA

Posted: Junho 15, 2011 in Uncategorized

Acordei. Era dia, estava completamente renascido, levantei esta âncora pesada da vida dos outros e ancorei no porto da minha irremediavelmente desaparecida nos tempos duros desta ausência de permanente multidão. Lancei as cartas com o ás de trunfo entre os dedos, escondido dos outros, fiz cara de perdedor, acabei perdendo a inevitável simplicidade dos dias, tristes, serenos, desprovidos de razão, enquanto a multidão se junta em volta desta mesa redonda que deixa ver o céu, jogo mais uma carta, só uma de cada vez. Ganhei, desta vez ganhei, quero ganhar sempre, é bom ganhar, sabe bem, sabe a sangue dos outros, sabe a maresia, a luar, quero ganhar sempre.

Esvanece-se esta luz do sol que em jeito de foice corta a cabeça ao dia e deixa a penumbra entrar dentro dos olhos dos pecadores, é sábia a ausência de luz, é cruel, amiga dos contrabandistas de esperança, dos mortais, apenas eu e o jogo. A multidão tem medo da escuridão deste jogo da vida, afasta-se da morte da luz.

Estou prisioneiro deste mar de sentimentos, jogo mais uma carta? Ainda tenho o ás entre os dedos, está agora na outra mão, guardo o para a eventualidade da morte me aparecer no jogo, deixo-o para o fim, dilema, terei de resolver se vou ou não ao jogo. Quero ir e se perco? Não vou perder, afinal tenho perdido uma vida inteira, a sorte há-de mudar…

Este acordar foi diferente, foi o acordar de uma vida de sono enamorado de mim próprio, não pela ausência de mim , mas sim pela ternura de mim próprio em mim.

Esta ausência de luz bate nos meus olhos doentes como cicatriz da solidão, do passado tantas vezes equacionado, do presente constantemente constante e a ficção do futuro, se o perder nada mais perco que aquilo que nunca tive, do que aquilo que nunca hei-de ter, do que aquilo que algum dia nunca quis ter e que agora tanto almejo, é algo entre o ocaso e alvorada, algo entre a ausência e a prova dela com os olhos doentes a verem um cadáver, algo entre deixar de ser e ser permanentemente ser, algo entre a vida eterna e a morte permanente de mim.

Vou jogar o ás, tem de ser, vou ganhar, tem de ser. Os outros olham me de soslaio com caras de sentida sensação de perca, olham me entre os óculos dos olhos doentes entretanto corrigidos nas sabias mãos de outros jogadores da medicina, sinto-os, vejo o sangue deles correr entre as veias cansadas do tabaco que juntos consumimos, sinto os e eles sentem-me, esperam por mim, esperaram pela vida, pela maneira constante que tenho de os observar, de os criticar em silencio murmurando para mim, palavras de raiva, tenho o ás, eles não sabem.

Encontrei ainda uma reserva de suor dentro de mim, vou faze-los esperar mais um pouco, desta vez vou ganhar, desta vez tem de ser..

Tenho a mesa entulhada de paciência, tenho tempo, eles sabem, espero mais um pouco tenho que elevar-lhes a pulsação para ser mais fácil evitarem o erro, e eu? Tanta vez deveria ter deixado elevar a minha ao limite na esperança do desafio deste jogo, agora saberia esperar mais e melhor, agora era rei em vez de plebeu, agora era eu quem comandava e teria olhos saudáveis postos em mim.

No baú dos meus dedos guardo o ás, vou joga-lo. Espero mais um pouco, só mais um pouco quero analisar a reacção da senhora da frente, será que ela também tem um ás? Não me parece, esta morta para a vida, morreu, cheira a cadáver tem cara disso, foi morta pela ausência de luz, vejo-o. O cavalheiro à minha direita não, esse, esta vivo, mas é desprovido de sentido, não tem opinião, se tem não a exprime, hummm está morto também, estão todos aqueles que não têm opinião, que tendo-a não a exprimem, está morto sim. O da minha esquerda, não é de esquerda, demasiado organizado para o ser, sim não é mesmo. Tem tez morena, olhos cálidos, sereno, abstracto, é este que tem o outro ás, deve de ser, é o de espadas, o meu vale mais, é de copas, eu agarrado ao ás de copas quando andei uma vida inteira a fugir deles, sim deles, fugi também ao de oiros nunca me prendi à matéria a não ser à matéria revoltante do arrependimento que talha a alma e faz a vida insípida, fugi sempre, agora tenho o ás de copas, o que vale mais de todos, está aqui dentro deste baú. Chegou a hora tenho de joga-lo, vou faze-lo lentamente pois quero saborear a revolta dos outros, sentir as lágrimas escorrerem lhes para dentro, invisíveis, tantas que largo a cada vez que perco, a Senhora e os Cavalheiros alguma vez viram? Não eu não deixo, perdoem-me este egoísmo latente, é fruto do cinismo que convosco fui aprendendo.

Vou perturbar o equilíbrio dos presentes, vou tossir, desconcentra-os, bem pensado. Tossi, vem da alma esta tosse, acto contínuo arranquei um conjunto de olhares e de bocas entre abertas, eu que andei tanto tempo a olhar e a abri a boca, era agora o alvo das atenções. Nos dedos tinha o ás, é agora tenho que aproveitar este compasso de tempo morto de descompensação mental deles para os surpreender, vou joga-lo agora, espero mais um pouco, gosto deste sabor, desta maneira de ser e de estar, estou à esquerda do Cavalheiro que está à minha direita, sou de esquerda estou no sitio certo, pensava eu, estou à direita do cavalheiro que esta à minha esquerda, sim mas eu sou de esquerda, a Senhora está à minha frente mas á direita de um e à esquerda de outro, é de direita, eu de esquerda.

Estou viciado nisto, neste analisar permanente dos outros, vícios adquiridos em mesas de café, nas bichas para a outra margem de mim. Porque se diz agora “filas” bicha é Português gosto mais do termo, perdoo-me a Senhora a falta de polimento que tenho mas apanhei-a a nos mesmos sítios onde aprendi que bicha é bicha.

Está na altura certa, vou joga-lo.

Já o fiz.

Quando novamente acordar descrevo-lhes as reacções dos presentes a esta jogada de mestre…Conto mesmo…

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